Superar uma dor, um trauma, uma cicatriz na alma pode parecer às vezes uma atividade sobre-humana, algo que escapa de nossos parcos limites e forças. Talvez por que desconhecemos nossas próprias forças, ou ainda por que nos julgamos menores do que os problemas e conflitos.
Perdoar uma grande mágoa, esquecer o passado e ver o presente com a lente do otimismo e o foco sobre coisas boas, decerto, não é obra do acaso, nem esforço de apenas um dia. Sentimentos, em certas circunstancias, são como vendavais de impiedosa grandeza, cujo epicentro apenas perde força com a ação cautelosa do tempo.
O certo, porem, é que tudo depende da interpretação que fazemos dos fatos inevitáveis da vida.
O que ontem era uma dor pungente e infinita, hoje pode ser uma mera sombra que não causa espanto ou preocupação. O imponderável sentimento de fraqueza e indignação outrora experimentado, não passa, agora, de rasteira lembrança e experiência para a alma.
Pode haver um meio tão direto e certeiro de se crescer quanto o sofrimento?
Quem julga viver uma vida imune a reveses e contrariedades, certamente não enxerga o trágico espetáculo de dor que lhe circunda; ignora parcela da vida - ou de si mesmo - e se ilude em gozar de um falso êxtase, na percepção difusa de uma ébria realidade.
A felicidade só e valiosa porque na sua retaguarda vigoram períodos de dor. Não fosse assim, e o mérito, a conquista e a realização seriam monótonos e indiferentes como mera rotina.
Assim é a nossa realidade humana; essa é a condição para dotarmos a vida de um sentido profundo.
Aqueles que enxergam instantes de dor com a perspectiva futura da compreensão são capazes de manter a serenidade no instante mesmo da crise. Desenvolver essa capacidade é consequência espontânea do viver, pois somos, a todo instante, submetidos a provas de dor e luta, perdas e fragilidade.
O coração, como que por natureza, se acostuma a sofrer fortes impactos, ficando cada vez mais resistente ao castigo das emoções. Talvez por isso, as pessoas que aproveitam os ensejos de crescer com os reveses, gozam, na velhice, de venerável serenidade e maturidade, personificando a sabedoria e a austeridade.
No fim, tudo é uma questão de tempo: para superar, esquecer, ou amadurecer. Maior ou menor, mais ou menos intenso em cada segundo, vagaroso ou sorrateiro... só depende de nossa forma de encarar os turbilhões inevitáveis e passageiros que preenchem de sentido e experiência a existência.

