Com grande
assombro, li hoje sobre a troca de farpas do vice-presidente do Supremo
Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, com o ex-presidente da Corte, ministro César
Peluso.
Embora
não seja incomum discussões acaloradas nas sessões do Tribunal ou bate-bocas
esquentados na imprensa, tal fato apenas corrobora a inexistência de equilíbrio
na Suprema Corte, e, mais ainda, aumenta o desprestígio do Poder Judiciário em
nossa sociedade.
A
Justiça no Brasil é demasiado lenta, ineficaz; avolumam-se os casos de
corrupção envolvendo juízes, desembargadores e ministros de tribunais
superiores; o CNJ, órgão de fiscalização e correição do Judiciário, é alvo de reiterados
ataques dos representantes deste próprio Poder, como se tivessem algo a temer.
E o próprio
Supremo, que antes ostentava a imagem de guardião da Constituição, estância da
Justiça imune a fraldes e corrupção, tem sido nos últimos tempos alvo de imprevisíveis
escândalos.
Nada
obstante, pode-se afirmar que a crise que o Judiciário – e mais especificamente
o STF – enfrenta é mais profunda: é uma crise de identidade. Malgrado suas
competências jurisdicionais fixadas pela Constituição, o STF não é uma Corte
Constitucional, nos moldes das que existem em outras países como Alemanha, haja
vista exercer inúmeras competências estranhas ao controle de constitucionalidade
concentrado.
Em sua
prática, o STF assemelha-se mais a um órgão especial cuja finalidade é julgar e
beneficiar políticos e corruptos de alto escalão, pelo mecanismo do foro
privilegiado. As ações originários do
Tribunal demoram anos para serem julgadas, ao passo que, se fossem iniciadas na
justiça de 1º grau, seriam solucionadas mais brevemente.
Para
agravar, o Supremo tem sido chamado a dar solução a temas extremamente
controversos, por inércia do Poder Legislativo, cujos integrantes, interessados
exclusivamente em cabides eleitorais e interesses partidários, se esquivam de
enfrentar questões que desgastariam a imagem dos congressistas.
Assim,
sobra à Suprema Corte dar a última palavra sobre assuntos que não são
originariamente da sua alçada, enfrentando o furor da opinião pública e sendo taxado,
frequentemente, de conservador, burocrático, ou corporativista.
Se não
bastasse, até mesmo perante os demais Poderes se verifica um enorme
desprestígio do Judiciário. O governo simplesmente rejeitou os termos de sua
proposta orçamentária para 2012, impedindo, ademais, a aprovação no Congresso
de proposições legislativas de grande relevância para a atividade jurisdicional.
Destarte, restou vetado o aumento do salário de juízes e servidores da Justiça Federal,
pleiteado ao longo de 2011, bem como não evoluem projetos de leis encabeçados
pelos órgãos de cúpula do Judiciário, como a PEC 544, parada há mais de uma década
na Câmara de Deputados, que visa a criação – mais do que necessária – de mais 4
Tribunais Regionais Federais.
Nesse ponto,
o ministro César Peluso foi coerente ao afirmar recentemente que “O Poder
Executivo no Brasil não é Republicano. É imperial”. A margem de poder do
Executivo extrapola o razoável e desestabiliza o equilíbrio entre os poderes.
Por
tudo isso, o Poder Judiciário precisa, urgentemente, recuperar o seu espaço na
democracia brasileira. Não pode mais se sujeitar à ingerência do Executivo e à
inércia funesta do Legislativo. Para isso, deve peitar o governo e seu poder
desmedido, invalidando, por exemplo, medidas provisórias inconstitucionais,
decretos abusivos, assim como ampliando os efeitos do mandado de injunção ou da
ADIN por omissão, a fim de garantir direitos previstos em normas da
Constituição não regulamentadas pelo Legislativo.
Em
suma, para reverter o quadro de desprestígio popular e institucional, o
Judiciário deve se valer das armas que possui, asseguradas constitucionalmente,
mesmo que para isso tenha que ser mais político e audacioso perante os demais Poderes.
